sexta-feira, 29 de maio de 2009

Por que “Doxa”?

“Poucas pessoas se dão ao trabalho de estudar a origem de suas próprias convicções. Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade. Por isso, a maior parte de nosso raciocínio consiste em descobrir argumentos, para continuarmos a crer no que cremos.”

Joan Robinson

Olá, meus caros leitores! Gostaria de iniciar o blog com uma postagem introdutória, tanto sobre as razões por detrás do nome do blog, como sobre a minha opinião sobre a opinião; como penso que as pessoas deveriam construir, por meio de um “ceticismo racional”[1] – como diria Bertrand Russell –, suas opiniões sobre o mundo, a religião, a política, a ciência e quaisquer outros assuntos de que tome conhecimento.

Primeiramente, por que doxa? Por que esse título para um blog? Doxa, como explico na descrição do blog, é opinião em grego. Unida ao radical grego orto (certo), forma a palavra “ortodoxo” (ou “ortodoxia”), que significa “opinião correta”. Meu ideal com este blog não é impor qualquer forma de ortodoxia, longe de mim tal idéia! Mas trazer minhas opiniões para que todos possam ler e julgar ao seu modo. Descartes, na “Primeira Parte” do Discurso do Método, diz que seu objetivo “não é dizer como cada um deve conduzir sua razão, mas dizer de que forma conduzi a minha”[2]. Ao contrário do filósofo francês, eu quero sim, dizer como penso que as pessoas deveriam conduzir e construir suas opiniões – e, se for bem sucedido, este preâmbulo mudará a forma de muitos pensarem a respeito de suas próprias idéias e crenças.

Na introdução de seu artigo “Método Científico”[3], Widson P. Reis escreve o seguinte:

Se eu lhe dissesse que o tempo passa mais devagar no primeiro andar de um prédio do que no último, você:

a) acreditaria na minha palavra, afinal eu devo saber o que digo para estar escrevendo um artigo;
b) não acreditaria; é muito absurdo pra ser verdade;
c) acreditaria; um amigo seu já teve essa sensação antes;
d) não acreditaria; não há nada na Bíblia sobre isso;
e) acreditaria, pois você conhece a Teoria da Relatividade de Einstein que diz que o tempo passa mais devagar próximo a campos gravitacionais, mas sabe que a diferença em questão é tão pequena que só pode ser sentida por relógios de altíssima precisão.

Mais importante do que a sua resposta à pergunta é a questão que se origina dela: quais os critérios que você usa para decidir no que acredita ou não? Você sempre aceita a palavra das autoridades no assunto? (mesmo daqueles que se auto-intitularam autoridades?) Baseia suas crenças no “bom senso comum”? (e acredita que o seu senso é bom e comum?) Acredita no que a maioria das pessoas acredita (afinal alguns milhões de pessoas não podem estar errados)? Confia suas crenças a respeito da natureza a livros sagrados de alguma religião? Não acredita em nada mas também não é muito rápido em duvidar, pois segundo Shakespeare “há mais no céu e na Terra do que sonha nossa vã filosofia”? (ou seja, permanece num estado de stand by crédulo?).

E então, “quais os critérios que você usa para decidir no que acredita ou não?” Eis a pergunta que muitos jamais fazem a si mesmos, e jamais refletem a respeito. Não foi à toa que abri a postagem com aquela citação provocativa de Joan Robinson. Você reflete sobre as origens de suas crenças? Faz um sério exame a respeito do que você acredita, por que você acredita, e como chegou a acreditar naquilo em que acredita? Quando estuda a respeito de um assunto, você busca informações confiáveis e o mais possivelmente neutras, ou informações que confirmem aquilo em que você acredita, sejam elas verdadeiras ou não? Ou, o que é ainda pior, assume como verdadeiro por estar de acordo com aquilo em que acredita?

Todos nós acreditamos em alguma, não importa o que seja. Mas ter essa crença, e o fato dessa crença ser algo natural no ser humano, não nos impede de examinar minuciosamente nossas crenças, e confrontá-las com fatos científicos e questões racionais. Uma crença não perde seu valor de verdade por ser uma crença, mas perde seu valor de verdade quando não há qualquer evidência ou argumentos coerentes e racionais que a sustentem. Ter “fé” em algo, pode nos ajudar e satisfazer psicologicamente, mas isso apenas trás um conforto pessoal. Não faz de uma crença mais verdadeira, ou mais plausível nem mais aceitável ou confiável.

A minha proposta com o blog é demonstrar como o “ceticismo racional”, a filosofia e os fatos e teorias científicos, podem nos ajudar a conduzir melhor nosso raciocínio, e a formular e emitir opiniões com maior confiabilidade e coerência. Se for bem sucedido, insisto, este blog será benéfico para muitos dos que estiverem dispostos a confrontar suas próprias idéias e crenças; afinal, um pouco de ceticismo não faz mal a ninguém – seria antes, ao contrário, a falta dele a nos prejudicar. Acredito que seja um grande ganho poder sentir firmeza em suas próprias convicções, ao invés de sentir-se inseguro na hora de emitir juízo sobre determinados assuntos de nossa vida quotidiana.


Notas:

[1] – Bertrand RUSSELL, Ensaios Céticos.
[2] – René DESCARTES, Discurso do Método, p. 9
[3] – Widson Porto REIS, Método Científico. Artigo originalmente publicado no website Projeto Ockham, em: http://www.projetoockham.org/ferramentas_metodo_1.html

11 comentários:

  1. Eh gustavo, não faça mais blogs...auahuaha....Logos falou...

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Blog novo o/ bonitinho ele, achei bem legal.
    É legal ler você também,
    escreve muito bem, moço ^^

    xeru
    =*

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  4. Gostei. Vc é um gênio.

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  5. Bom texto introdutório Lord, espero que seu blog faça bastante sucesso.

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  6. Sempre bom ver ateus dispostos a fazer pessoas pensarem, qestionarem razões e crenças.
    Gosto desta disposição, boa vontade em fazer sua parte para contriuir em uma sociedade de pensamento mais lógico,crítico.
    Parabéns! É sem dúvida, uma boa proposta.

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  7. Gu!

    Você já está bem treinado de blogs (rs). Esse está muito bom! A idéia do nome e a proposta são ótimas, o "estilo" está bom também. Apesar de o "M.A.R." ser mais pomposo e ter mais presença, me sinto mais à vontade nesse.
    Bom, discutir opiniões já é algo complicado, ainda mais tratar sobre como se dão as opiniões - de qualquer forma, muito interessante.
    A minha opinião sobre a formação de opiniões das pessoas é a seguinte: cada pessoa é única porque vive, vê e tem uma estrutura totalmente pessoal para as perspectivas em um modo geral. Então a formação intelectual de cada um é MUITO pessoal(e único) também. Acredito que em muitos casos - por aproximações de valores do seu grupo culturalmais restrito - há a aproximação dessas opiniões, por haver afinidade e tal. Sobre a racionalidade... Não me prendo muito a isso. Na verdade, não me prendo muito a nada. Sinto que tenho tanto para ver, sentir e aprender (começo a achar que acumular cnhecimentos por experiência é bem melhor) que não posso dizer que sei o que é verdade por vai depender do que é verdade - e como cada verdade atua sobre a vida diferente das diferentes pessoas.
    Enfim, parando com a prolixidade toda, opinião, pra mim, seria um modo de mostrar indiscriminadamente o que você vê como verdadeiro para a SUA vida. E, quando se trata de algo mais geral deve-se sim, daí, buscar as raízes em comum das coisas/assuntos.

    Essa é minha opinião sobre opinião. Sempre há muito a se discutir, apenas acho que não precisa ser baseado em algo já existente sempre.

    Beijão.

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  8. Ainda que se agigante os poderes da insensibilidade cultural, não deixarei eu de fazer orbita no mundo que me faz amante da sabedoria e da intelectualidade...
    Amei vir te ler...

    abraços

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  9. Uma pérola rara entre tantos blogs fúteis. Grande iniciativa, a de instigar o pensamento lógico. Tens todo meu apoio. Abraço, caríssimo. Ateu Dispor.

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  10. É isso ai, vamos por os extremistas para pensar em algo além desse absolutismo deles tipo o Danone hauhaahu!!!
    Brincadeira, parabens!!!!!
    Fui!!!

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  11. Vim, li e gostei, to seguindo...
    Comenta lá no meu blog também, amigo, gostaria de suas opiniões sobre alguns assuntos que postei.
    Abçs!

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